Histórias da Vila Madalena
A influência indígena
Em meados do século XVI
surge um novo fator de povoamento com um verdadeiro método de colonizador: os
jesuítas Nóbrega, com visão política e Anchieta com a energia de um santo jesuítico,
resolveram fundar serra acima, entre as tribos guaianazes, um colégio para catequizar
os indígenas. A situação geográfica de São Paulo, sua localização estratégica
sabiamente escolhida pelo instinto guerreiro dos índios, em pouco tempo transformou
esse novo castelo forte em núcleo de povoamento de primeira ordem.
A política jesuítica de aldeamento
dos índios em pouco tempo esparramou pelos territórios do planalto, em torno
de São Paulo, uma quantidade de aldeias e entre essas se espalharam fazendas.
No planalto, o núcleo principal
era São Paulo, em torno da futura capital surgiram inúmeras aldeias de indígenas
tais como: Santo Amaro, Guarulhos, Carapicuíba, Itaquaquecetuba, São Miguel
e Pinheiros. Fora destes territórios era o sertão.
Os únicos pregadores da fé, que
tinham um método e uma disciplina própria quanto à catequese dos índios eram
os jesuítas. Reuniam os indígenas submetia-os a uma disciplina, a um método
de vida coletivo. Obrigava-os a trabalharem a determinadas horas e a reunirem
o produto do trabalho em comum, para ser aproveitado por todos da comunidade.
‘Em função desta disciplina
imposta pelos jesuítas, por volta do século XVI os indígenas não habituados
ao estilo de vida do homem branco, abandonam a parte central da cidade de São
Paulo, onde estava instalado o pátio do colégio e constituem um aldeamento próximo
ao Rio Pinheiros, que leva o nome de Vila dos Farrapos. Uma região extensa que
começava na várzea deste rio e seguia morro acima, em direção da Avenida Paulista’.
Os morros e planaltos desta região
eram entrecortados pelo córrego do Rio Verde, que mais tarde daria nome ao bairro
da Vila Madalena.
A partir do século XIX, começa
o desenvolvimento da cidade de São Paulo em torno da cultura do café e posteriormente
a industrialização. As estradas de ferro começam a fazer parte da paisagem paulista.
O início do século XX é marcado
pela expansão industrial e comercial que ocorre principalmente
É neste intenso convergir de
pessoas, que encontramos os núcleos portugueses de famílias, que desembarcavam
no porto de Santos. Na bagagem o pouco que possuíam e no coração a esperança
e a vontade de conseguirem um pedaço de chão para fincarem suas raízes.
“Por volta de
Em entrevista com Iracema Guedes,
com 96 anos de idade, ela conta:
“Havia um português de
nome Gonçalo, proprietário de uma imensa gleba de terras, o Sítio do Rio Verde.
Quando foi deflagrado o processo de ocupação, isso por volta de 1914 ou 1915,
não sabendo precisar o ano, o lusitano resolveu lotear suas terras, dividindo-as
em três vilas: Vila Albertina, Vila Beatriz e Vila Madalena. Uma homenagem à
suas três filhas. Devido ao pequeno tamanho da Vila Albertina, a mesma foi incorporada
a Vila Madalena”.
O bairro nasceu simples com o
que há de mais puro no mundo: o amor do pai para com sua filha. Talvez
isso explique o carisma que a Vila possui até os dias atuais. Quem se aventurava
naquela época a desbravar o novo bairro, tinha que ter espírito empreendedor
e uma fé inabalável. As ruas de terra batida , a topografia acidentada
do local, a falta de energia elétrica e a ausência de água tratada, eram de
desanimar até os cristãos mais fervorosos. A única maneira de chegar à Vila
Madalena era a cavalo ou a pé.
O que se avistava da rua Teodoro
Sampaio ao longe, era um pequeno amontoado de casas, a grande maioria de barracos
e apenas algumas de alvenaria, estas pertencentes a alguns portugueses mais
abastados para os padrões da região.
Há quem pense que as dificuldades
paravam por aqui, ledo engano, tudo era muito difícil no novo bairro, e as melhorias
demandavam tempo.
Em dias chuvosos caminhar pelas
ruas da Vila Madalena tornava-se um desafio à lei da gravidade.
“As ruas de terra se transformavam,
a qualquer chuvisqueiro, num mundão de barro. Os colonizadores precisavam ter
pelo menos dois pares de calçados: um mais rústico e reforçado, para descer
ladeiras enlameadas até à rua Teodoro Sampaio, outro, um pouco melhorzinho,
para substituir os sapatos, as botas, ou quedes, ou similares sujos de barro,
para não sujar o bonde. Na volta a operação se repetia, só que em sentido contrário”.
A Vila Madalena foi descoberta
por imigrantes portugueses, gente simples, de poucas letras. Atraídos
pelo anúncio de que a Light iria construir na área uma estação de bondes. Foram
chegando, como quem não quer nada. E ficaram. Eram servidores da
limpeza pública, motorneiros, cobradores de bondes, pedreiros, padeiros, açougueiros
ou construtores de túmulos nos cemitérios São Paulo, Araçá e da Consolação.
Construíam suas casas quase todas
iguais, baixinhas, em geral faziam duas: uma na frente, maior, onde morava o
casal e os filhos solteiros; a outra nos fundos, menor, onde o filho mais velho,
já casado permanecia ali até ganhar asas para voar e construir seu próprio ninho.
As casas dos portugueses da Vila
eram separadas umas das outras por muros baixos, de metro e meio. Para
que as senhoras portuguesas pudessem trocar: alhos por um buquê de margaridas;
um maço de couves por algumas folhas de erva-cidreira, próprias para fazer um
chá capaz de espantar a insônia, a ansiedade, o medo de viver, o medo de morrer;
e para trocar um bom dia falado com o coração por outro bom dia respondido no
mesmo tom suave, próprio de gente alegre e festeira, como os portugueses.
“A alegria dos portugueses
da Vila Madalena extravasava nas memoráveis quermesses que precediam as festas
religiosas em louvor dos padroeiros oficiais, Santa Maria Madalena e São Miguel
Arcanjo e também do padroeiro honorário São Zenão. Seriam necessárias centenas
de folhas para falar das quermesses. E quem não se lembra do correio elegante,
revelador de amores tímidos no começo, declarados depois, pomposamente, valendo
música dedicada no serviço de alto-falante, mais tarde o civil e o religioso,
depois os filhos, a eterna história do homem”.
No início a Vila Madalena era
um bairro no meio do nada, não tinha açougue e quitandas. Os pães eram
todos feitos em casa e vendidos de porta em porta, através de uma carroça.
Os vaqueiros da região ordenhavam as vacas todas as manhãs e saíam vendendo
o leite em baldes de alumínio pelas ruas da Vila.
De posse de suas latas, os portugueses
dirigiam-se até uma bica d’água existente na atual rua Rodésia, para poderem
preparar o almoço e fazerem sua higiene pessoal. Quem podia mandava construir
cisternas nos quintais, mas a grande maioria dependia da generosidade da natureza.
A iluminação ficava por conta
das velas, lamparinas e lampiões. Ao cair da noite ninguém se aventurava
a sair pelas ruas do bairro, principalmente com lua cheia ao céu, lendas fantasmagóricas
povoavam a cabeça dos moradores.
As melhorias chegaram aos poucos,
diríamos que lentamente, a passos de tartaruga. Afinal, a Vila Madalena
era um bairro de operários, gente pobre, humilde. Não havia ninguém influente
o bastante ou disposto o suficiente para, exigir do poder público melhores condições
de infra-estrutura básica.
A fórmula para driblar tal descaso
era bater de porta em porta nos gabinetes dos vereadores, deputados estaduais,
secretários, prefeito e do governador do estado, tentar ser ouvido e quem sabe,
ser recebido.
A energia elétrica chegou ao
bairro em 1928, graças a São Paulo Light Power que instalou pelo bairro os postes,
fios e transformadores. Foi o fim do apagão, dos lampiões e da luz de
vela. Não conduziam apenas a corrente elétrica, conduzia a esperança de
dias melhores, o progresso!
O desenvolvimento da região não
parava, e a primeira escola é instalada numa pequena sala da rua Fidalga, com
vinte alunos aproximadamente, o nome: Escola Mixta Isolada Vila Madalena.
Tudo parecia transcorrer tranqüilamente
no cotidiano das pessoas, mas devido a um governo federal altamente centralizador,
o Estado de São Paulo se rebela contra a política econômica. Foi da cidade paulista
que partiram as primeiras manifestações antigetulistas. A Revolução de
1932 se avistava no horizonte. Diversos moradores da Vila Madalena se
alistaram nas frentes de batalha. Findos os conflitos, alguns retornaram
para suas famílias, outros deram a vida por um ideal.
Os portugueses não se conformavam
que a Vila ainda não possuísse uma capela. A igreja mais próxima era a
do Calvário, localizada à rua Cardeal Arcoverde, onde a comunidade realizava
seus batizados e casamentos.
Atentos a realidade, formaram
uma comissão e em 1944 saíram pelas ruas do bairro pedindo uma colaboração de
quem pudesse ajudar. A esse movimento deu-se o nome de ?peditório?. O
valor arrecadado era guardado para a construção da tão sonhada ermida.
A persistência e o comprometimento
da comunidade foram recompensados no início de 1946, com a inauguração da Capela
de Santa Maria Madalena e São Miguel Arcanjo.
“Os portugueses queriam
o nome de São Zenão, um santo português, mas padre Miguel bateu o pé e não aceitou”.
Nesta pesquisa pelo bairro, um
fato despertou para uma nova reflexão: o nome das ruas. Encontrou-se na
grande maioria um certo ar juvenil e porque não dizer alguma displicência, mas
há de se convir que é uma atração à parte, ora, pois!
Nas conversas com Antônio Ivo
Pezzotti, ele explica:
“Os primeiros habitantes
que vieram para cá, eram a maioria portuguesa, quase todos analfabetos ou semi-alfabetizados.
Isto está traduzido inclusive no nome das ruas, pode ver são substantivos comuns.
Rua Girassol, porque Girassol?... Na casa dos portugueses havia muito girassol
plantado. Rua Simpatia achavam que uma pessoa era muito simpática, ah vamos
pôr aqui o nome da Rua Simpatia. Purpurina, uma filha que foi a uma loja e comprou
purpurina para fazer um trabalho da escola, então rua Purpurina. Nomes comuns,
rua Harmonia... Na Vila Beatriz, tem rua Lira. Não há nomes de compositores,
de maestros, de literatos, não existe. Porque a capacidade deles é de
gente que não tem cultura, então eles deram nomes de substantivos comuns a estas
ruas, e isto foi tão importante, que conseguiram manter para sempre. Os latinos
dizem: Nomen és Domo, o nome identifica a pessoa. Esses substantivos de
nomes estão dando a identidade da Vila Madalena, que nasceu humilde, singela”.
Um bairro construído com a modéstia
de pessoas corajosas. A força e a união desses imigrantes portugueses
era sem dúvida alguma a mola propulsora do desenvolvimento da Vila. Mas faltava
alguém que unificasse todos os anseios da comunidade, e que através de sua voz
se fizesse ouvir pelos arrendatários do poder. A Vila Madalena necessitava de
um líder comunitário.
Olavo Pezzotti, o sacerdote e sua obra
Criada a paróquia de Santa Maria
Madalena e São Miguel Arcanjo, era necessário nomear e empossar o seu primeiro
vigário. O escolhido foi o padre Olavo Pezzotti .
Mal saído do seminário central
do Ipiranga, onde se destacou como aluno brilhante, e ordenado sacerdote no
dia 04 de novembro de 1949, o padre Olavo assumiu as funções de coadjutor da
paróquia da Consolação, uma das mais importantes e disputadas da capital.
Neste tempo residia com a família
num sobradinho alugado da rua Joaquim Antunes, no bairro de Pinheiros.
O sacerdote acordava de madrugada para pegar o ?bonde dos feirantes? e chegar
até à igreja da Consolação.
“Nessas viagens matinais
xingavam-no de urubu. Não dava importância, porque no bonde arranjou muitos
amigos e aprendeu a conviver com palavrões, piadas indecentes, brincadeiras
de péssimo gosto. Os seus professores eram portugueses, italianos, espanhóis,
nipônicos, tudo gente muito boa, mas de áspero acabamento. As lições foram muito
úteis ao padre moço”.
Permaneceu como adjunto da paróquia
da Consolação durante um ano. Uma nefrite o tirou por longos oito meses
de suas funções.
No dia 29 de julho de 1951, o
padre Olavo chegou a pé na Vila Madalena. Em sua companhia estavam seus
pais. Subiram a íngreme encosta do morro, vencida a ladeira, lá no alto,
na frente da capela do Cruzeiro, encontraram a comunidade que estava a sua espera.
Todos felizes a saudarem o primeiro
vigário da paróquia, que vinha a ser para eles o representante de Deus, o repartidor
de bênçãos, o mensageiro da alegria, o conselheiro, o juiz e o líder comunitário
que, ao longo do tempo, provaria ser capaz de levar para o bairro as melhorias
nunca antes sonhadas.
Ao ver a alegria das pessoas,
padre Olavo faz seu primeiro sermão:
“Vim para servi-los em
qualquer hora do dia ou da noite. Durante treze anos, internado no seminário,
me preparei para o encontro de hoje. Pobre, branco ou negro, estarei sempre
ao lado dos senhores em quaisquer circunstâncias, principalmente nas horas de
tristeza, nas dificuldades, nos dias de incerteza e possível fome. Eu
lhes peço por amor de Deus que não se esqueçam de mim. Estarei sempre
de braços e coração abertos. A porta da minha casa, que não é minha, pois
os senhores a construíram, continua sendo dos senhores. Serei apenas um
inquilino trabalhador. Venho em nome de Deus e, justamente por isso, não
tenho medo de nada e de ninguém. Quero ver as pessoas como realmente são,
com suas virtudes e defeitos. Foi o próprio Deus que imprimiu os caracteres
diferentes em cada um, fazendo-os indivíduos, indivisíveis, para tornar menos
monótono o mundo”.
Foi com estas palavras que o
sacerdote definiu a sua estratégia, seu estilo e sua forma de exercer a função
que lhe foi confiada.
Tornou-se o líder comunitário
que desconhecia o cansaço e soube encontrar as soluções para os problemas do
bairro.
Num tempo em que predominava
uma visão paternalista no trato com os enigmas, as angústias e os anseios da
comunidade, o vigário da Vila adotou uma política revolucionária. Possuía
a convicção de que, melhor do que dar, favorecendo a alienação do povo é colocar
na mão dos excluídos, instrumentos capazes de elevar a sua dignidade e de devolver
a eles o gosto pela luta e pela vida.
“Para ele ser sacerdote
era levar a mensagem do jeito que fosse possível, com as unhas e com os dentes,
com raiva se fosse preciso. Enfiado no meio do povo, chorando com ele, rindo
com ele, sentindo cheiro de suor, não se incomodando com o bafio ruim dos que
não tinham água para tomar banho, nem com o hálito empestado de chagas incuráveis,
não se amedrontando, nem se deixando contagiar pela tristeza da miséria e muito
menos com a cara feia da morte”.
E desta forma, o jovem vigário
começou a dotar o bairro de equipamentos práticos. A creche, instalada
em 1954 num casarão alugado da rua Harmonia, foi um desses apetrechos.
Destinava-se a abrigar e atender aos filhos de mães que precisavam trabalhar
fora do lar. Pagava quem podia, para cobrir a falta dos que não podiam
pagar.
Não era fácil manter a obra.
Começou a escassear o arroz, o feijão, as bolachas e o leite. Mas o vigário
da Vila tinha um amigo chamado Calim Eid, que era proprietário de um armazém
atacadista no Largo da Batata (bairro de Pinheiros). E foi graças à presença
marcante deste colega, que os alimentos retornaram à mesa da creche.
Preocupado com a educação dos
filhos dos seus paroquianos, padre Olavo foi até o então prefeito Wladimir de
Toledo Piza e conseguiu uma escola pré-fabricada, que foi instalada no terreno
da igreja. Ali funcionou durante anos o Grupo Escolar de Vila Madalena
que, tempos depois, devido a sua insistência junto à prefeitura, foi transformado
O vigário da Vila não tinha medo
de ousar. Atento ao problema da desqualificação profissional de muitos
jovens da paróquia, alugou um prédio na esquina da rua Wisard com rua Fidalga
(atual prédio do Banco Bradesco S/A.), e ali instalou o Liceu Santa Madalena,
onde funcionava jardim de infância, comercial básico e madureza.
As mensalidades eram simbólicas
e isso incomodou alguns diretores de escolas particulares do bairro de Pinheiros.
Após denúncias junto à Secretaria da Educação, de supostas irregularidades na
modesta escola, padre Olavo se rendeu aos ?comerciantes da educação?, porém
não desistiu de continuar ajudando ao próximo, essa era sua missão. O
sacerdote montou um curso de corte e costura para moças pobres, e a vida seguiu
seu rumo.
Em agosto de 1952 o vigário juntamente
com a comunidade, construiu uma casa grande, onde foi instalado o Ambulatório
Médico Odontológico São Miguel.
Fora o atendimento na área da saúde, era distribuído gratuitamente aos mais
necessitados remédios, roupas, maisena e leite em pó.
Os tempos continuavam difíceis,
a economia do país passava por percalços, assim, uma parcela não desprezível
da população da Vila Madalena, vivia em eterna e constante pindaíba. Foi
dessa circunstância que nasceu outra invenção pioneira do pároco: as Cooperativas
de Consumo e de Crédito.
“O padre conseguia adquirir,
a preços baixos, ou recebia em doação gêneros de primeira necessidade. E acompanhado
de alguns amigos, visitava as famílias mais necessitadas e lhes entregava um
cartão, pelo qual podiam retirar mensalmente o que precisavam para o sustento”.
O vigário da Vila era um homem
feliz, exercia como ninguém a missão que lhe foi depositada, era incansável
na sua luta diária.
Devido a sua visão comunitária,
o padre Olavo, pensava que o seu povo precisava de divertimento, para espantar
as mágoas, para tornar menos árido o duro cotidiano. Conseguiu um empréstimo
e comprou uma máquina cinematográfica de dezesseis milímetros. Os filmes
eram projetados à noite pelo próprio pároco, na parede externa da casa paroquial.
Em uma dessas sessões de cinema ao ar livre, um fato que ficou na lembrança
do Sr. Ivo Pezzotti:
“Na tela se desenrolava
a cena de flagelação de Cristo e num dado momento um português, beirando os
90 anos não conseguindo se conter desabafa: Ó senhore padre bigário, bamos parare
com essa judiação. Desse jeito serão capazes de matare o pobre!”.
Não era fácil desempenhar a função
de intermediário entre as necessidades do seu bairro e os que tinham poder para
a elas atender. Mas o vigário da Vila era um homem teimoso, tinha a seu
favor a vantagem de não pedir nada para si e de não se comprometer politicamente
com nenhum partido.
Conseguiu com sua obstinação,
fazer com que o desenvolvimento chegasse definitivamente a Vila Madalena: o
asfalto e a extensão da rede de esgotos, primeiro na rua Girassol e depois,
aos poucos, em todas as outras vias públicas do bairro; o primeiro telefone,
que foi instalado na casa paroquial; a extensão da linha de bondes da Light
até à rua Purpurina e a subida do ônibus da Viação Santa Cecília até à rua de
mesmo nome.
A capela que durante vários anos
abrigou a comunidade, já era pequena. Não comportava mais tantos fiéis.
Padre Olavo se lançou, com toda a força da sua juventude, à tarefa de construir
uma igreja de verdade para reunir o seu povo. Conheceu Joaquim Guedes12, um
jovem arquiteto recém saído da universidade. Conversaram, trocaram idéias
e o pároco explicou o projeto que tinha em mente.
“O padre queria que a
igreja fosse feita de concreto aparente e tivesse o formato de um navio. Explicou
que pensava que a igreja é a nau de Cristo atravessando mares e oceanos de paz
ou de tormenta, a caminho do reino de Deus. Com a cabina de comando no centro.
E sendo a igreja esse navio de todos os ventos, de todas as marés, de todas
as tempestades, deveria ter o altar no centro”.
Consta no projeto original que
a igreja seria sustentada por sete colunas externas que simbolizariam os sete
sacramentos: batismo, crisma, confissão, eucaristia, ordem, matrimônio e unção
aos enfermos. Também seria construída uma torre de trinta e cinco metros
de altura, feita de um material plástico transparente para que, iluminada à
noite, significasse para os fiéis uma vela votiva apontando para o céu, esperança
de todos os crentes. Ficaria distante do corpo da igreja uns dez metros,
na sua base seria instalado o batistério.
O significado é que, antes de
entrar na igreja material, que é a representação do corpo místico de Cristo,
é necessário o batismo que faz do homem, filho de Deus, herdeiro do reino.
O arquiteto assimilou bem o desejo
do padre Olavo, retornou e mostrou o fruto do seu trabalho, trouxe consigo uma
novidade: o interior do templo seria uma imensa nave, única, sem colunas internas,
um desafio à lei da gravidade.
O projeto para o seu tempo era
extremamente arrojado. A tarefa agora era levar a planta para a aprovação do
cardeal arcebispo de São Paulo. Não foi aceito, para a cúria, uma igreja com
altar no centro, era uma blasfêmia. O vigário da Vila não se deu por vencido,
fez uma retirada estratégica e aguardou o momento certo para retomar a empreitada.
Convidado a fazer um programa
de televisão, com duração de dez minutos diários, na emissora Organização Victor
Costa (atual Rede Globo), padre Olavo aceitou o desafio.
O programa tinha o título de
“O Semeador” e foi transmitido durante treze anos ininterruptos. Era a
chance do vigário da Vila, levar a palavra de fé e esperança a milhares de pessoas.
Iria se comunicar com um universo muito maior do que a sua paróquia.
A Vila Madalena transformou-se
em lugar de romaria, a construção da sua igreja ganhou um grande alento e o
padre pôde fazer muito mais pela sua comunidade.
Em pouco tempo o programa conquistou
a cidade inteira. Diante de tal fato, o cardeal arcebispo de São Paulo
autorizou o início das obras da igreja matriz , que foi inaugurada em 21/07/1963.
Algumas pessoas apenas passam
pela vida sem nada fazerem pelo próximo, outras se envolvem e lutam pelo bem
estar de uma comunidade inteira. Deixam marcas profundas e perpetuam saudades
imensas. Padre Olavo foi esse tipo de pessoa, amou seus paroquianos e
por eles dedicou sua vida.
“Em 13 de outubro de 1968,
padre Olavo despedia-se da paróquia da Vila Madalena. Após 17 anos e três meses
como pároco da Vila, sua eminência cardeal Dom Agnelo Rossi, houve por bem transferir
padre Olavo para a paróquia de Nossa Senhora da Consolação”.
A Vila Madalena perdia o maior
benfeitor que se tem notícia da história do bairro. Porém na longa estrada do
progresso a Vila encontraria tantos outros amigos que, de alguma forma iriam
colaborar com o desenvolvimento do bairro.
A Vila e suas personalidades beneméritas
O médico José Sabino
O médico José Sabino morava na
Vila Madalena desde 1946. Sua especialidade era cuidar da saúde das pessoas
mais humildes. Trabalhou durante quarenta anos no Ambulatório São Paulo
da Cruz, da paróquia do Calvário, sem ganhar um tostão sequer. Vale aqui
um testemunho pessoal:
“Minha mãe sempre se
consultava com o doutor José Sabino. Lembro-me das diversas vezes que a acompanhei
até o Ambulatório São Paulo da Cruz, na Igreja do Calvário. O interessante é
que o médico, além de prescrever a receita, ele também fornecia o remédio. Existia
uma farmácia comunitária ao lado de sua sala”.
Uma figura humana, com um coração
imenso. O doutor Sabino era uma pessoa de poucas palavras, porém extremamente
simples em suas atitudes e gestos.
Quando o padre Olavo chegou na
Vila, o médico tinha um consultório num sobradinho situado no alto da rua Mourato
Coelho. Mais tarde ele o transferiu para a rua Cardeal Arcoverde, próximo
da rua Fradique Coutinho, atualmente uma clínica de estética.
Ao lado do vigário, ajudou incondicionalmente
os mais pobres. Caso alguém precisasse de um atendimento mais apurado,
dava encaminhamento para o Hospital das Clínicas. Sempre abnegado, cuidava
com extremo zelo de seus pacientes.
A sua dedicação para com a comunidade
do bairro rendeu a ele o reconhecimento público de toda a região. Foi
eleito vereador e deputado estadual.
Apesar de viver rodeado de pessoas,
o doutor José Sabino, demonstrava certa tristeza em seu semblante, filho de
sírio-libaneses, ele perdeu a família inteira.
Atualmente não exerce mais o
ofício da medicina. Continua residindo na mesma casa desde 1946, na rua
Baltazar Carrasco. Muito mais que ser o médico da Vila, o doutor José
Sabino soube ser aquele amigo nas horas de dor, de incerteza e de medo.
Corina Estevinho
Dona Corina é um exemplo de mulher lutadora, que dentro das
suas condições econômicas, sempre ajudou ao próximo.
Começou a trabalhar com nove
anos, na residência de uma família de alta classe do jardim América. Ali
permaneceu até o ano de 1994. Foram mais de 79 anos de trabalho sem carteira
assinada.
Naquela mansão ela se ocupava
em lavar, passar, engomar roupas, tratar da limpeza dos pisos de mármore, da
prataria, da cozinha, dos vitrais, dos lustres, das estátuas e de tudo o mais
que fosse necessário.
Foi trabalhando nesta casa, que
ela conheceu pessoalmente o ferro elétrico de passar, segundo dona Corina:
“Depois veio a enceradeira!
E quando alguns empregados viram a engenhoca andar sozinha, saíram correndo
a benzer-se. Eu não. Peguei-a na unha e acabou-se toda a valentia. E ela me
foi de grande serventia”.
Corina Estevinho usava o pouco
tempo que lhe sobrava para lavar roupas para as famílias do bairro City América.
Lavava, passava e arrumava as peças em trouxas enormes que a filha Marisa, tratava
de entregar.
Desta forma e com grande rigidez
orçamentária, sempre tinha uns “cobres” de sobra. Carregava sempre consigo,
embaixo dos pés, entre a meia e a sola do sapato.
E aconteceu que,
certo dia, caminhava de volta para casa quando foi interrompida por um meliante
que a intimou a entregar o dinheiro. Ela não se apavorou. Abriu
as mãos cheias de calos, fez uma cara de imensa consternação e disse:
“Não estás bendo, ó filho,
que sou uma pobre biuba? Beja as minhas roupas. Bibo só de esmolas, porque já
não tenho forças para trabalhare”.
O ano era 1934, dona Corina integrava
o time feminino de futebol da União Operária , que foi o primeiro esquadrão
de futebol de mulheres de São Paulo, nas terras da Vila Madalena.
Certo dia, logo cedo, dona Corina
estava acomodada no bonde. Foi aí que um rapaz começou a falar mal do
padre Olavo, ao qual ela dedicava um carinhoso respeito e enorme gratidão.
E o jovem falava em alto e bom tom para que todos ouvissem, que o vigário não
passava de um borra-botas. Ela descreve a cena:
“Arrepita o que disseste,
ó gajo!... E não é que ele repetiu!... Rolamos os dois no chão do bonde. Até
que o homem se rendeu. Levantei-me, sacudi minhas roupas para tirar a poeira
e liquidei o assunto: É para aprenderes a controlare essa língua de trapo, ó
fedelho!”.
Dona Corina não é de briga, o
seu forte é o amor ao próximo. Sua maior alegria na vida é presentear
as pessoas. Tricotava várias blusas de lã e doava as famílias carentes
da Vila Madalena. Durante anos seguidos quando sobrava algum dinheiro,
ela ia ao Largo São Francisco, e sem distinção alguma, distribuía um pouco de
dinheiro aos mendigos e depois pagava um lanche.
Uma mulher forte, que nunca se
acovardou diante dos desafios da vida. Enfrentou como poucos os revezes
do destino. Resignação e sabedoria sempre a acompanharam em sua existência.
“Quando foi abandonada
pelo marido, Dona Corina sofreu. Tinha a obrigação de sofrer. Afinal tinham,
ele e ela, jurado compromisso de eterna fidelidade. Sofreu, mas não se abalou.
Não deixou que o sofrimento abrisse ferida sem cura”.
Superou a dor do desprezo e da
humilhação, numa época em que, mulher ?largada? do marido não era bem vista
pela sociedade. Seguiu em frente, redobrou a sua luta, mostrou para todos
que era uma mulher de fibra.
Família Pires
Nascido e criado na Vila Madalena
há mais de sessenta anos, Domingos Antônio Pires, começou a trabalhar no ramo
de funilaria de automóveis. Sua oficina uma das mais tradicionais de São
Paulo na década de 60 localizava-se à rua Fradique Coutinho esquina com a rua
Wizard.
Em 1977 juntamente com mais dois
sócios, transferiram a oficina para a rua Fidalga n° 289. Após alguns
meses dissolveram a sociedade. No mesmo ano, Domingos em companhia da
esposa, a Sra. Ana Maria, construíram no local um enorme galpão e inauguraram
a Auto Mecânica Flama Car . A oficina
mecânica tornou-se uma potência dentro da Vila Madalena, proporcionando o desenvolvimento
do bairro, além de oferecer emprego as pessoas.
Com visão administrativa e um
senso de oportunidade muito grande, a família resolveu investir na vida noturna
da região. Inauguraram em 1991 na mesma rua Fidalga n° 242, o bar Quitandinha,
uma referência para o encontro dos jovens com idade média de vinte e cinco anos.
Devido ao sucesso
da primeira casa noturna, em pouco tempo, abriram uma danceteria, com o nome
de Santa Casa, no número 308 da mesma rua.
Os investimentos da família Pires
no bairro da Vila Madalena continuava. No ano de 1994 inauguram o Café Nina,
uma homenagem à Dona Ana Maria.
O gosto pela vida
noturna fez com que em 1996, na rua Luis Murat n° 370, inaugurassem o Santa
Casa 2. Uma moderna danceteria, com amplas instalações, com uma capacidade
de receber hum mil e duzentas pessoas.
A família Pires colaborou definitivamente
para a o desenvolvimento da Vila Madalena, confirmando sua fama de bairro boêmio
da cidade de São Paulo.
José Luís de França Pena
O Sr. José Luís de França Pena,
natural da Bahia, veio para São Paulo num momento delicado da política nacional.
Devido as suas ligações com o partido comunistas, agentes da polícia, empenhadíssimos
em ver conspiradores e revolucionários em todos os lugares, estavam à sua espreita
em Salvador.
Quando escolheu a cidade de São
Paulo como seu refúgio natural contra a ditadura militar, José Luís de França
Pena também veio disposto a trabalhar em qualquer proposta, que o mantivesse
ligado às artes. Foi convidado para atuar no musical Hair (peça teatral
de maior sucesso na época) de 1973, tendo como companheira de palco a atriz
Sônia Braga.
Assim que chegou na cidade, ele
e sua banda se fixaram na rua Capote Valente, parte alta do bairro de Pinheiros.
Logo percebeu que seu estilo de vida se adaptaria melhor ao bairro da Vila Madalena,
onde ao lado de outros artistas, poderia exercer plenamente sua intelectualidade.
A disposição das tradicionais
famílias portuguesas de aceitarem aquela que seria uma verdadeira avalanche
de pessoas ‘estranhas’, se deve ao fato que o povo português é festeiro e possuem
tino para ganhar dinheiro. Logo perceberam uma fonte de renda extra, ao
alugarem suas edículas.
“Os locatários não exigiam
qualquer papel para que os sujeitos com suas barbas e as mulheres com suas vastas
cabeleiras se instalassem em seus imóveis. Bastava a palavra. Foi, por sinal,
do apalavrado, do acertado de boca e do fiel cumprimento do que se tinha fechado
que os artistas adquiriram o tal inimaginável, ou seja, a possibilidade de se
instalarem nas casas e nos fundos de quintal sem maiores formalidades”.
Existia um sistema simples de
compra nas quitandas e mercearias da Vila, os proprietários anotavam em cadernetas.
Uma ficava no estabelecimento e a outra com o freguês, que acertavam a conta
geralmente no começo de cada mês.
Dono de um pensamento avançado
e trazendo consigo idéias novas, José Luís de França Pena foi o idealizador
de um grupo que lutasse e defendesse o bairro. Em pouco tempo, tornou-se
um ativo representante dos interesses da região, já que nesta mesma época, o
lugar era conhecido como a Vila das Artes e a Filha de São Paulo.
Aos poucos foi se
articulando com os demais moradores da Vila Madalena e o primeiro projeto voltado
para a comunidade foi a Rua do Lazer. Os organizadores contavam com monitores
que cuidavam das crianças pequenas e orientavam as demais para brincadeiras
de: corridas de saco, cabo de guerra, modelagem em massas e balão pula-pula.
Havia mágicos que ensinavam os truques da magia, e não podia faltar também o
palhaço e o equilibrista para animar a garotada.
A rua do Lazer também recebia
doações de roupas, brinquedos e livros escolares, que depois eram doados às
famílias carentes. Funcionou durante dois anos e chegou ao fim por falta
de monitores e de colaboração dos moradores.
A Feira da Vila seguiu os moldes
da rua do Lazer, porém foi um projeto com um alcance maior entre as pessoas.
Devido a forte presença de artistas e intelectuais na Vila Madalena, a idéia
era organizar uma feira diferente de todas as outras. Um evento voltado para
o povo, que além de proporcionar entretenimento gratuito, oferecesse cultura
e informação. Seria uma forma também dos artesãos exporem seus trabalhos para
a comunidade, gerando empregos indiretamente.
A primeira Feira da Vila Madalena
foi realizada no dia 10 de Fevereiro de 1980, na rua Fradique Coutinho, entre
as ruas Aspicuelta e Wizard. O inédito ficou por conta das diversas especialidades
expostas e dos conjuntos musicais que se apresentavam nos palcos. Ao longo
da rua, havia barracas de artesanato, comidas típicas, brinquedos, roupas indianas,
cerâmicas, livros e bijuterias feitas por hippies. As crianças também
tiveram seu espaço no evento, foram montados um balão pula-pula e trenzinhos
para a garotada.
“Cerca de vinte mil pessoas
compareceram e se divertiram. A Feira teve duração de quatorze horas e terminou
com um samba coletivo, ao som da bateria da Escola de Samba Pérola Negra. O
sucesso foi tão grande, que era para ser realizada apenas uma vez por ano e
em 1980 foram efetuadas quatro feiras”.
Reunidos, os organizadores chegaram
à conclusão que arte e cultura andam de mãos dadas, sendo ingredientes fundamentais
para a vida de um povo.
Um dos maiores colaboradores
da Feira, o Sr. Antônio Barletti devido ao desgaste com as exigências do poder
público municipal, desiste de fazer parte da comissão organizadora do evento.
A situação torna-se crítica, mesmo assim, José Luís de França Pena decide continuar
com sua idéia, de dar à Vila Madalena um acontecimento que fosse a cara do bairro:
irreverente, cultural e porque não dizer, democrática.
Ao lado de alguns colegas criou
o Centro Cultural Vila Madalena (C.C.V.M.). Logo de início deram continuidade
à Feira da Vila, que passava a ser anual. Depois vieram outras atividades
como o primeiro plano urbanístico, a campanha contra a verticalização do bairro
e a sinalização das ruas, revertendo algumas vias de acesso para mão única.
Em sintonia com os acontecimentos
nacionais, a Feira da Vila sempre politizada exibe um novo tema a cada edição,
como forma de chamar a atenção da comunidade para os problemas sociais, que
de alguma maneira estejam ligados ao bairro.
“Em 1987 devido a alterações
na Lei de Zoneamento e a rápida verticalização da região, Contra a Privatização
do Sonho; Bodas de Prata da Loucura homenageou os 25 anos da revolução de 1968,
mostrando o inconformismo e a vontade de transformar o mundo, típico dos jovens
daqueles tempos; No ano de
Há de se concordar que a Feira
da Vila tem vida própria. Todo o ano existe uma expectativa muito grande
sobre o tema e as novidades que ela vai apresentar. Quem já expôs na Feira,
aguarda com ansiedade a próxima edição. É o maior evento do gênero na
cidade de São Paulo. Para se ter uma idéia do seu sucesso, no ano de 2002
recebeu duzentos e oitenta mil visitantes. Políticos, intelectuais, artistas,
gente descolada, curiosa, enfim, é um acontecimento que agita o calendário cultural
da nossa cidade.
Existem pessoas que passam desapercebidas
pela vida, e há pessoas que se sobressaem as demais. O Sr. José Luís de
França Pena, é esse tipo de pessoa, um visionário além do seu tempo, um homem
de gestos simples e sorriso largo. Ao se preocupar com o bairro, ergueu
uma bandeira que não é somente sua e sim de toda uma comunidade. Foi perseguido
pela ditadura militar, como a maioria dos jovens que contestavam um regime político
arcaico. Ele define muito bem a época: O Brasil andava na contramão da história.
O país escrevia o capítulo mais
triste da sua história. Censura, medo, perseguições, o cerceamento da liberdade
dos indivíduos, os porões do AI-5...
Nada disso impediu o Sr. José
Luís de França Pena de ser um líder nato.
A década de 1970 na Vila Madalena
O mundo ainda estava fascinado
com a chegada do homem à Lua, em 1969, quando foi disputada a Copa do Mundo
do México, em 1970.
O movimento feminista ganha força
e as mulheres lutam pelos direitos de igualdade nas principais ruas de New York.
Enquanto o país vivia a repressão
política, no futebol a seleção enche a população de alegria. Na Copa de
1970, o time brasileiro dá um show de bola, com Pelé, Tostão, Rivelino, Gérson
e companhia. Foram seis vitórias em seis jogos, dezenove gols marcados
e apenas sete sofridos. O Brasil vence na final a seleção da Itália, com
um placar de 4 x
Primeiro país a ganhar um tricampeonato
mundial de futebol. Uma superioridade incontestável no mundo futebolístico.
A taça Jules Rimet ficou definitivamente com o Brasil.
Uma alegria passageira, não havia
como prolongar tamanha felicidade continuávamos vivendo o terrorismo do regime
militar. Torturas, prisões, assassinatos de opositores do governo, suspensão
de direitos constitucionais, atentados, seqüestros e atos de sabotagem assolavam
o país.
O golpe tem um desfecho rápido,
o congresso nacional declara vago o cargo de Presidente da República.
Logo de início destaca-se a profundidade
e o furor da repressão política, em particular contra a doutrina trabalhista
e outras organizações de esquerda. Os sindicatos, a união nacional dos
estudantes (UNE) e as universidades, bem como os jornais e rádios, tiveram suas
sedes ocupadas e destruídas, em evidente desrespeito à constituição do país
e aos direitos e garantias individuais. Ao mesmo tempo, a morte e o desaparecimento
de inúmeras lideranças sindicais e camponesas, assim como a deposição de governadores
eleitos prenunciava o que seriam os anos de terror do regime militar.
Com toda essa virulência,
o conjunto residencial da universidade de São Paulo (CRUSP), palco de muitas
revoltas contra a ditadura, é fechado pelos militares. Desta forma, estudantes
e professores viram-se obrigados a procurarem um lugar próximo à universidade
de São Paulo (USP), que oferecesse aluguéis baratos.
A Vila Madalena atendia a estas
duas necessidades básicas, sua localização é próxima da cidade universitária
e oferecia aluguéis baixos.
A migração para a Vila torna-se
inevitável, assim, estudantes, professores e artistas anônimos instalam-se no
bairro.
Uma característica marcante das
residências dos portugueses é as pequenas casas construídas no fundo dos imensos
quintais. Entenderam que podiam ganhar uns ?trocados? a mais ao alugarem
suas edículas, para aquelas pessoas de ares insólitos.
Show é o que não
faltava na Vila, a Tetê Espíndola e o Raul Seixas freqüentavam o ?Sujinho? (Apêndice
4), primeiro bar a ficar aberto vinte e quatro horas no bairro. Tinham a companhia
do Chico Evangelista, Paulinho Boca de Cantor, Almir Sáter, Moraes Moreira,
Arrigo Barnabé e dos Novos Baianos. Os cartunistas Paulo e Chico Caruso elegeram
as mesas do Empanadas para encontrarem com os amigos.
A censura alcança limites insuportáveis,
vários jornalistas foram perseguidos pela polícia, logo se fazia necessário
sair do Rio de Janeiro, onde jornais como Opinião e O Pasquim eram produzidos.
Foi na rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto que algumas redações de jornais, a
chamada imprensa alternativa, foram se instalar. Pode parecer mera casualidade,
a proximidade com o bairro da Vila Madalena, porém o ar contestatório do local
acabava por influenciar a escolha.
“É bem possível que o
espectro da censura a jornais e mentes tivesse criado uma espécie de defesa
natural que, num determinado momento ? mas também num dado local, no caso a
Vila Madalena - começou a se impor. Alguém diria, com todas as letras, que teria
sido uma espécie de Intifada intelectual... Nada estranho que logo a Vila Madalena
se tornasse numa espécie de trincheira natural à violência da ditadura. Era,
em todo caso, na Vila Madalena que se reuniam alguns dos inconformados do Brasil
da censura prévia”.
“A repressão abate-se,
também, sobre os intelectuais, artistas e estudantes. Peças teatrais de Bertolt
Brecht e Federico Garcia Lorca são proibidas; o teatro Opinião, um dos principais
centros da dramaturgia brasileira, é invadido por forças militares; policiais
do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), invadem e depredam um teatro,
O obscurantismo atinge as universidades,
com a expulsão de físicos, médicos, juristas, historiadores e cientistas sociais,
além de centenas de estudantes.
Sem dúvida alguma, foram anos
de plena estagnação no campo políticos, econômico, artísticos e culturais.
No seu afã de manter a ordem a qualquer custo, a censura torna-se responsável
pela separação entre o bem e o mal. De forma sucessiva, no início dos
anos 70, proíbe a publicação da Declaração da Independência dos Estados Unidos;
a exibição do Balé Bolshoi e a exposição de uma cópia da escultura ?Davi?, de
Miguelângelo.
Estávamos sobre o jugo de um
sistema político falido, que procurava esconder sua ineficácia, muitas vezes
refletida nas mazelas do país.
A Vila Madalena é praticamente
uma ‘ilha’ no meio do oceano da intolerância, onde os indivíduos podiam expressar
suas idéias. Reduto da inteligência e da boêmia, berço da intelectualidade paulistana,
abrigo de intrépidos estudantes, professores e artistas anônimos, que fizeram
dos bares da Vila verdadeiras muralhas contra o regime militar. E assim
nasceu a República Socialista da Vila Madalena, baseada na cerveja, nos sonhos
e na liberdade de expressão.
As pessoas procuram aqui muito
mais que um simples abrigo para seus ideais, buscam entender a própria história
do país. Na verdade, o bairro da Vila Madalena é como coração de mãe,
enorme, sempre pronta para receber seus filhos que daqui saíram e ganharam o
mundo, e tantos outros jovens que buscam aqui inspiração na antiga contracultura.
A aura de bairro charmoso e intelectual que a Vila Madalena possui, transcende qualquer explicação racional.
Fonte : Trabalho de Conclusão de Curso de
FLÁVIA MARIA DE CASTRO RODRIGUES apresentado como exigência parcial para obtenção
do grau de Bacharel em Turismo à Banca Examinadora das Faculdades Integradas
Teresa Martin, sob a orientação da Profª MS. Andréia Maria Roque. LIVRO: Vila
Madalena - História, Fatos e Fotos 1900 à 2000 - Décio Justo Afonso editora
Nativa.